Com uma população que representa mais de 18 % do total mundial, África possui um enorme potencial para desenvolver a sua indústria do livro. No entanto, a dependência das importações, as dificuldades de distribuição e a falta de políticas específicas continuam a condicionar o crescimento de um setor fundamental para a diversidade cultural do continente.
África tem histórias para contar, autores por descobrir e uma tradição literária que atravessa gerações e línguas. No entanto, o potencial da sua indústria editorial ainda não corresponde à sua dimensão demográfica nem à riqueza da sua produção cultural. Um relatório publicado pela UNESCO em 2025, que analisa pela primeira vez o setor do livro nos 54 países africanos, quantifica esta realidade: o continente representa 18 % da população mundial, mas gera apenas 5,4 % das receitas globais da indústria editorial.
O estudo estima que o mercado africano do livro gere cerca de 7 000 milhões de dólares por ano. No entanto, com os investimentos e as políticas adequadas, poderia atingir os 18 500 milhões, dos quais 13 000 milhões corresponderiam ao setor educativo. Para além dos números, o relatório levanta uma questão fundamental: desenvolver a indústria editorial não consiste apenas em vender mais livros, mas também em garantir que as sociedades africanas possam produzir, publicar e divulgar as suas próprias histórias.
Um mercado com talento, mas com barreiras estruturais
Um dos principais desafios da indústria editorial africana é a sua dependência dos mercados estrangeiros. Segundo a UNESCO, em 2023, o continente importou livros no valor de 597 milhões de dólares, enquanto as suas exportações mal atingiram os 81 milhões. Esta diferença reflete as dificuldades que as editoras locais enfrentam para competir, distribuir os seus títulos e aceder aos mercados internacionais.
O problema tem também uma dimensão institucional: 90 % dos países africanos carecem de legislação específica para apoiar a indústria do livro, para além das normas básicas em matéria de direitos de autor e depósito legal. A isto juntam-se obstáculos como os custos de impressão, a infraestrutura de distribuição limitada e as dificuldades de acesso a livrarias e bibliotecas, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
No entanto, o panorama também apresenta sinais de transformação. A UNESCO destaca o crescimento de uma nova geração de autores que explora formatos como a banda desenhada e o livro eletrónico, bem como uma maior presença das mulheres no setor editorial. No Burquina Faso, por exemplo, a escritora Rose Kouévi salienta que o número de escritoras passou de apenas uma dúzia para mais de 200 nos últimos anos.
Estas iniciativas demonstram que o desenvolvimento do setor depende tanto da criação literária como da construção de um ecossistema capaz de a acompanhar: editoras, livrarias, espaços de leitura, formação profissional e políticas públicas que facilitem a circulação das obras.
Publicar é também construir uma identidade
O crescimento da indústria editorial tem implicações que vão além da economia. Num continente caracterizado por uma enorme diversidade linguística e cultural, o livro constitui uma ferramenta para preservar a memória coletiva, transmitir conhecimentos e ampliar a representação de diferentes comunidades.
A publicação de obras em línguas locais, o apoio às editoras independentes e a criação de redes entre países podem contribuir para que as histórias circulem sem depender exclusivamente dos grandes mercados internacionais. Permitem também que novos autores encontrem leitores dentro e fora dos seus países de origem.
Neste sentido, iniciativas como a designação de Conakry como Capital Mundial do Livro em 2017, de Acra em 2023 e de Rabat para 2026, no âmbito do programa da UNESCO, têm contribuído para promover campanhas de leitura, fortalecer os ecossistemas editoriais e alargar o acesso aos livros.
O desafio consiste agora em transformar esse potencial cultural numa indústria sustentável, capaz de gerar emprego e oportunidades para escritores, tradutores, ilustradores, editores e livreiros. Porque cada livro publicado não representa apenas uma nova oportunidade comercial: também alarga o espaço a partir do qual uma sociedade pode contar a sua própria história.